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ÁGUA REVOLTA
MARCOS DAMACENO

DRAMA


PERSONAGENS
A
B
C
D
E (que permanece mudo e parado durante toda a peça)

LOCAL DA AÇÃO:
um espaço fechado. paredes.

Nota do Autor: Considero Água Revolta uma dramaturgia de devaneios, estruturada pelo ritmo e pela musicalidade das palavras e pelo seu equivalente silencioso. À encenação deve-se acrescentar o não-dito, momentos que estão para além das palavras, também como, deve-se acrescentar silêncios estáticos.

(um longo silêncio)
A - eu queria ser
(silêncio)

(silêncio)
ser
(silêncio)
eu queria ser só
e me bastasse
mas é preciso sentir, amar, doer, gozar
C - sentir é preciso ?
A - é ! é preciso
é preciso o sentir !
B - é preciso um sentido !
D - um sentido já é
sempre
preciso !
C - sempre ?
B - não tanto quanto um sexto sentido !
D - é ! um sexto sentido é sempre preciso
tão preciso quanto convivências !
C - homens, mulheres
B - palavras
D - mãos, olhos, boca, coração, peito, bunda, sexo
C - deus
(escárnio de todos, menos de E, e no mesmo tempo)
(silêncio)
(longo silêncio)
(longo silêncio)
A - NÃO ME TOQUE
C - EU NÃO GOSTO DE VOCÊ
por que você fica
se as minhas palavras
se as minhas mãos
não te alcançam
ainda assim te carregamos
feito cruz
como outras cruzes que carregamos
enterradas
com jeitos, cheiros
por que você fica, e fica, e fica, e fica, e fica, e fica, e fica
água que não passa
me atormenta
por onde quer que eu vá
eu a vejo
por onde quer que eu vá
eu a vejo
uma imagem
uma presença
uma pedra
uma flor
uma rocha
um fantasma
que não me larga, que não me larga, que não me larga,
que não me larga, não me larga, NÃO ME LARGA
A - me olhe
C - me atormenta
água que não passa
chuva que não passa
A - me escute
C - não me larga
D - eu não preciso de você
nunca precisei
acho
que ninguém precisa
estou farta
dos outros
não suporto os outros
não suporto a mim mesma
(breve silêncio)
A - eu queria sair e nunca mais voltar
C - existem muitas paredes aqui dentro
A - dormir e nunca mais acordar
D - existem muitas pessoas aqui dentro
C - tão próximos e tão distantes
e tudo tão vago
tão sem sentido
fútil, banal
D - continuar se tornou sem sentido
A - é tudo tão difícil
B - se ao menos chovesse menos
A - eu não consigo
D - é só uma chuva
C - uma chuva que não passa
A - dilúvio
D - desgosto
C - abandono
A - água forte
C - que bate e volta, bate e volta, bate bate e volta
B - se eu soubesse eu não nascia
morava
por toda a vida
no calor do útero da minha mãe
da minha mãe
não causava dano algum
foi um erro
A - desculpe
B - retiro tudo o que disseram
desdigo
corrijo
recrio
engano
não mais me sacrifico
D - não vale a pena
C - nada mais vale a pena
(longo silêncio)
C - por que é que continuamos ?

(longo silêncio)

A - sempre quando ando, ando, ando, ando
sozinha
a noite
e sinto menos medo
do que sozinha
(sempre sozinha)
no meu quarto
fechado
onde nunca há silêncio
há palavras
que não dizem nada
e ficam, e ficam, e ficam, e ficam
C - gotejando
D - trovejando
C - me abrindo
B - me perfurando
A - me escavando

(breve silêncio)
A - eu saio
(mais descaminho do que caminho)
e vejo olhos que se encontram
mas passam
não param
e eu não paro
gostaria de tê-los
mas não param
acordo chorando
queria que fosse tudo um sonho (rindo e chorando)
C - mas você não é, você não é, VOCÊ NÃO É
você é uma pedra
uma presença
um fantasma
D - uma pessoa
B - fugindo
C - se perdendo
A - se procurando
D - se trancando
C - se vasculhando
D - se percorrendo
A - não se encontrando
D - só vejo
a minha imagem
(breve silêncio)
refletida nestas águas escuras
C - turvas
D - poças que me alagam
C - que me inundam
D - que me afogam nesta porra de sentimento de morte
(silêncio)
B - esqueçam tudo o que eu disse
não importa
me deixem ser / morrer feito homem
com isto que há plantado em meu peito
C - uma pedra
A - uma flor
D - uma rocha
B - um algo
que bate pouco
e que
as vezes
quase desiste
B - queria pertencer a vida real
C - dos sonhos
A - devaneios
D - dos homens, mulheres
C - amar, sentir, doer, gozar
(silêncio)

C - quantas vidas será preciso
para que você deixe de me corroer
me consumir
a alma?
depois de tanto
seu vestígio nela ainda é visto
o que a faz sonhar
chorar
exalta-se diante do resquício
mordo os lábios
que ainda conseguem imaginar
sentir
o gosto dos seus
(escárnio de todos, menos de E)
D - não acredite em tudo o que você sente
D - esqueça
A - me largue
B - me sinta
C - não enche
A - me beije
B - me toque
D - me foda
C - não enche
A - me olhe
D - me goze
B - me sinta
C - não enche
A - me sinta
C - não enche
B - me sinta
A - abrace
C - não enche
não enche
não enche
não enche
(breve silêncio)
D - me coma
C - não enche
(breve silêncio)
B - eu tenho medo
A - estou cansada
D - eu queria dormir e nunca mais acordar
A - estou cansada
D - eu queria sair
ver, olhar
A - estou cansada
D - beijar, foder, trepar
A - estou cansada
C - se ao menos chovesse menos
B - amado menos
A - estou cansada
(breve silêncio)
não agora
nem hoje
sempre
eu estou cansada
já acordo cansada
não sei...
desculpe
C - tocar, tocar, tocar
B - não fique assim
A - eu queria ter alguém
C - todo mundo quer ter alguém
todo mundo precisa ter alguém
até deus
D - eu não
eu não preciso
eu não preciso de você
eu não preciso de ninguém
não preciso de fantasmas
com jeitos, cheiros
boca, pele, calor, seios
EU NÃO PRECISO DE VOCÊ
C - então, por que é que você não vai embora ?
(silêncio)
A - não sei
talvez seja, porque eu estou -
e de todas as noites
ter que ir dormir
chorando
me abrace
me abrace
me abrace
me abrace
me abrace
me abrace
me abrace
alguém me abrace
por favor
(breve silêncio)
D - NÃO
não me toque (estendido)
A - eu não gosto de você
desapareça
desapareça
desapareça
D - eu não gosto de pessoas
A - desapareça
D - eu desaprendi a gostar de pessoas
A - desapareça
D - não é culpa sua
A - desapareça
D - não é minha culpa
A - desapareça
D - a vida
a porra deste mundo me fez assim
não entendo como a vida
a porra deste mundo funciona
onde é que eu entro nesta história
o que é que eu estou fazendo aqui
C - neste nada que nunca acaba
(longo silêncio)
(longo silêncio)
B - a violência na maçaneta no abrir a porta. seguido dos passos pesados no assoalho. cada vez mais pertos, cada vez mais pertos, cada vez mais pertos, ainda hoje eu os ouço.
não era minha culpa se eu não conseguia parar de chorar a noite toda, não era minha culpa.
um estrondo arrebentava.
eu ficava minutos sem respirar.
(silêncio)
muito do que eu sinto e sou hoje, se deve, talvez, a essas noites eternas, e aos dias inteiros em que eu passava jogando pedras no céu. que não o alcançavam.
sempre que essas coisas ruins aconteciam – dias chuvosos, emparedamento - a culpa não era minha, a culpa não era minha, a culpa era dele. porque deixava e compactuava com o meu sofrimento aparentemente sem razão de ser.
por que algumas crianças choram, não brincam, se isolam, não falam, têm olhos arregalados e pensamentos dispersos e tornam-se pessoas adultas deslocadas e sem sentido ?
quando a coragem me vinha eu corria e me metia entre pernas e braços da minha mãe, da minha mãe. único lugar onde eu me sentia protegido, confortado. onde havia um calor, um calor que eu nunca mais tive.
mas ainda tinha medo. a noite era muito barulhenta para eu dormir tranqüilo, mãe, mãe, por que todas aquelas coisas estavam acontecendo? por que é que a noite era tão barulhenta ? por que chovia tanto ?
quando pequeno eu só queria ser alguém.
C - amado
querido
A - desejado
D - pertencer
C - ser aceito
B - ser
(leve escárnio de todos, menos de E)
D - compreender
entender
me relacionar
assumir
A - sumir
findar
acabar
desistir
B - por que eu não podia ter parado de crescer –
C - desistir
acabar
D - findar
D - desabar
A - desandar
C - desmoronar
D - desamar
A - parar
voltar
C - revolver
D - ir
B - talvez outro dia
D - estiar
C - estiar
A - estiar
B - novamente tentar
A - submeter
D - interromper
C - suspender
B - quem sabe até
A - largar
C - adernar
afundar
D - imergir
B - conseguir
A - murchar
C - apagar
A - voejar
D - esvaecer
evanescer
C - se extinguir.
( fim )

Este texto só poderá ser apresentado, em todo ou em partes, através de autorização expressa da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) ou de contato direto com o seu autor.

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